Segunda-feira. O silêncio da manhã parecia mais profundo do que o habitual. Nico e Olivia dormiram até 9:30 — um recorde, revelando o corpo exausto depois de um final de semana exigente. É o primeiro dia das férias — da escola e, agora, também dos treinos de beisebol, que fizeram uma pausa depois de um fim de semana intenso: a seletiva para a seleção brasileira sub-10 pan-americana, que acontecerá na Venezuela.
Cerca de 80 meninos de 9–10 anos disputando 18 vagas. Todos nervosos (meninos e pais), sendo avaliados e querendo ter o orgulho de representar o Brasil. E, mesmo assim, algo raro aconteceu: vimos crianças torcendo umas pelas outras. Havia incentivo. Apoio. Aplauso. Torcida silenciosa. Dicas. Parecia que cada um sabia que, se não fosse ele, tudo bem que fosse o amigo.

Foi nesse clima que vimos Jeremias tomando café no sábado de manhã, assim que entramos no refeitório do CT Yakult. Jogador brilhante do Gecebs, time de tradição, já cruzou com o Nico em muitos campeonatos desde que começaram no beisebol (eles são de 2015). Alto, esguio, com uma envergadura que salta aos olhos, tem um braço privilegiado e um domínio impressionante para alguém que ainda vai completar 10 anos. Caminha com leveza, mas impõe presença — mesmo em silêncio. E no montinho… É preciso. Firme. Seguro. Domina os arremessos com naturalidade, como se tivesse nascido dentro de um campo. Um talento silencioso — e inegável. É, sem exagero, um dos melhores pitchers da categoria hoje.
Mas a gente não esperava vê-lo naquela seletiva. O sotaque entrega: Jeremias (ou Jeremiah, como eu o chamo) nasceu na Venezuela e, pelas regras, só brasileiros podem participar de seleções pan-americanas nacionais. Descobrimos que o menino tem dupla cidadania — o avô é brasileiro — e, portanto, estava ali com legitimidade plena e muito merecimento. Quando o vimos ali sentado com os colegas, houve surpresa e sorrisos (e a quase certeza de que agora seriam 17 vagas para cerca de 79 meninos).
Sábado à noite, depois de todos os drills, jogos e avaliações, os meninos tiveram um tempo livre entre o jantar, o banho e o descanso para o próximo dia. Jeremias apareceu no alojamento de Atibaia para brincar. Uns 10 minutos depois, atrás dele, a mãe chegou, rindo e brincando:
— Vocês sequestraram meu filho pra jogar em Atibaia?
E bem que a gente queria — o menino é pura simpatia, humildade, sorrisos e técnica perfeita. Ficamos ali, observando todas as crianças juntas — de times diferentes, sotaques variados — conversando e brincando como se fossem uma só turma.
Foi então que a mãe do Jeremias começou a contar a história deles — uma história riquíssima de emoção, que encheu os olhos de lágrimas.
Quando vieram ao Brasil, Jeremias tinha uns cinco, seis anos. Filho de pai e mãe venezuelanos — a mãe, com o nome mais significativos que já ouvi: Roraima — Jeremias nunca mais voltou. Fez do Brasil a sua casa, do campo de beisebol o seu lugar de pertencimento. E do Gecebs, o time do coração.

Roraima contou que estavam ali, sim, competindo por uma vaga — mas também carregavam um sonho maior: aquela seletiva era a primeira oportunidade de, talvez, Jeremias voltar à Venezuela após 4 anos. E mais: voltar defendendo a camisa do país que os acolheram.
O beisebol no Brasil tem mudado e uma parte significativa dessa transformação veio de fora. Uma das maiores influências nos últimos anos tem sido a dos venezuelanos — famílias que cruzaram fronteiras com filhos pequenos e sonhos grandes. Trazem técnica refinada, paixão, Reggaeton e generosidade. Uma entrega ao jogo que contagia.
Aqui em casa, esse movimento tem nome, rosto e ensinamento: Nico já foi treinado por três senseis venezuelanos (Jhonathan, Thony e Hector). Cada um, à sua maneira, ensinou e ensina bem mais do que técnica. Ensinam intensidade, exigência, amor pelo jogo, coragem — e também respeito. Porque ser grande, eles mostram, não é só saber jogar. É saber crescer junto com força, raça e determinação.

E, claro, não dá pra falar de beisebol no Brasil sem reverenciar a base que nos sustentou por décadas: a comunidade japonesa — que temos no sangue. Foram os nipo-brasileiros que fincaram as estacas, construíram campos em terrenos improváveis, ensinaram as primeiras gerações a respeitar o esporte. Os que jogavam descalços com a mesma seriedade de quem disputa final de campeonato.
Agora, o que vemos é um campo plural. O menino de sobrenome japonês (Kawazoe) dividindo posição com o menino de sotaque espanhol (Aires). O beisebol brasileiro se tornando, cada vez mais, um espelho do país que somos: diverso, miscigenado, resiliente.
Jeremias é um retrato dessa imigração. A mãe disse que além do desejo de entrar para a seleção brasileira, o menino quer muito — muito mesmo — pisar novamente na terra que eles chamam de “país-mãe”. Ela relatou o quanto essa vontade se transformou em esforço e treino, tanto que tinha machucado a canela. Mas, ainda assim, não tinha desistido de seguir.
Chamei o Nico e contei um pouco dessa história, cheia de emoção. Ele imediatamente procurou Jeremias, deu um tapa nas costas e falou, com um sorriso imenso:
— Jeremias, você tem que passar nessa seletiva.
— Você também, amigo — ele respondeu.
E ali, naquela conversa de dois segundos, coube tudo o que acredito que o esporte pode ensinar. Numa seletiva em que a ansiedade poderia virar competição cega, o que se viu foi reconhecimento. Uma criança torcendo sinceramente por outra, mesmo sabendo que poderiam disputar a mesma vaga. Essa é a verdadeira vitória.
Os resultados da seletiva devem sair na próxima semana. A ansiedade é grande. Nico sabe o quanto se dedicou — treinou duro, se entregou, enfrentou o nervosismo e mostrou, mais uma vez, que ama esse jogo com o corpo inteiro. Tenho certeza de que, independente do resultado, ele está orgulhoso de si por ter dado o máximo que podia. Nós também.
Mas o que mais me toca, no fim de tudo, não é a vaga. É essa capacidade que ele — e tantas outras crianças — demonstraram de enxergar o outro, de aplaudir o esforço genuíno, de torcer mesmo quando estão competindo. Porque é isso que fica e o resto, é a história que eles mesmo estão escrevendo.












